domingo, 18 de setembro de 2011

Já tem oito meses que eu não ponho os dedos no meu blog. Agora bateu uma nostalgia e uma vontade de escrever qualquer coisa mas não tenho o que escrever. Ah, quem sabe um dia eu escreva alguma coisa e poste aqui. Até lá, fico com a memória dos velhos tempos.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Gabriel

Coragem meu amigo. Ainda se lembra daquele pôr-do-sol? Segura firme, não solte, vem comigo, vem, anda, não desanime, coragem jovem, coragem, coragem, vem, estou contigo, me dê a sua mão, isso, segura forte, não solta, não, não, isso, isso, apenas mais um pouquinho... Eu te levanto meu velho! Não chore, são pequeninas e belas, mas não as verta agora, sorria, está tudo bem. Levanta. As suas pernas falham, respira fundo, olha para o céu, olha para o azul eterno, profundo e imenso, busca nele a força que os seus membros necessitam. Está lá toda a energia de que você precisa. Sente meu querido amigo? Pois agora vá. Eu estarei sempre ao seu lado. Sempre. Aqui. Enquanto você dorme estarei acordado. Não tema, de que vale o medo?

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Na era da globalização, o que deveríamos ler?

“O Cânone Ocidental” de Harold Bloom define o cânone literário como “a escolha de livros em nossas instituições de ensino”, e sugere que a verdadeira questão que ele suscita é: “o que o indivíduo que ainda deseja ler deveria tentar ler, a essa altura da História?” E ele observa que, na melhor das hipóteses, dentro do tempo de uma vida é possível ler somente uma pequena fração do grande número de escritores que viveram e trabalharam na Europa e nas Américas, sem contar aqueles de outras partes do mundo. Mesmo nos atendo somente à tradição ocidental, quais são os livros que as pessoas deveriam ler? Não há dúvidas de que a sociedade e a cultura ocidentais foram influenciadas por Shakespeare, pela “Divina Comédia” de Dante, e – voltando atrás no tempo – por Homero, Virgílio e Sófocles. Mas será que somos influenciados por eles porque os lemos de fato em primeira mão?

Isso lembra o argumento de Pierre Bayard, em “Como Falar Sobre Livros que Você Não Leu”, de que não é essencial ler de fato um livro de capa a capa para entender sua importância. Por exemplo, é nítido que a Bíblia teve uma profunda influência tanto sobre a cultura judaica como sobre a cristã no Ocidente, e mesmo sobre a cultura de não-crentes – mas isso não significa que todos aqueles que foram influenciados por ela a tenham lido do começo ao fim. O mesmo pode se dizer sobre os escritos de Shakespeare ou James Joyce. É necessário ter lido o Livro dos Reis ou o Livro dos Números para ser uma pessoa culta ou um bom cristão? É necessário ter lido Eclesiastes, ou basta simplesmente saber em segunda mão que ele condena a “vaidade das vaidades”?

Sendo assim, a questão do cânone não é homóloga à do currículo escolar, que representa o conjunto de obras que um estudante deverá ter lido ao fim de seus estudos. Hoje o problema é mais complicado do que nunca e, durante uma recente conferência literária internacional em Mônaco, houve um debate sobre o lugar do cânone na era da globalização. Se roupas de marca “europeias” são produzidas na China, se usamos computadores e carros japoneses, se até em Nápoles comem hambúrgueres em vez de pizza –  resumindo, se o mundo encolheu a dimensões provincianas, com estudantes imigrantes em todo o mundo pedindo para aprender sobre suas próprias tradições – então como será o novo cânone?

Em certas universidades americanas, a resposta veio na forma de um movimento que, mais do que “politicamente correto”, é politicamente estúpido. Como temos muitos estudantes negros, algumas pessoas sugeriram ensinar-lhes menos Shakespeare e mais literatura africana. Uma ótima piada à custa de todos aqueles jovens destinados a saírem pelo mundo sem entender referências literárias universais como o solilóquio do “ser ou não ser” de Hamlet – e, portanto, condenados a permanecerem à margem da cultura dominante. Se tanto, o cânone existente deveria ser expandido, e não substituído. Como foi sugerido recentemente na Itália, a respeito de aulas semanais de religião nas escolas, os estudantes deveriam aprender algo sobre o Corão e os ensinamentos do Budismo, bem como sobre os Evangelhos. Assim como não seria mau se, além de suas aulas sobre a civilização grega antiga, os estudantes aprendessem algo sobre as grandes tradições literárias árabe, indiana e japonesa.

Não faz muito tempo, fui a Paris para participar de uma conferência entre intelectuais europeus e chineses. Foi humilhante ver como nossos colegas chineses sabiam tudo sobre Immanuel Kant e Marcel Proust, sugerindo paralelos (que poderiam estar certos ou errados) entre Lao Tsé e Friedrich Nietzsche – enquanto a maioria dos europeus entre nós mal conseguia ir além de Confúcio, e muitas vezes com base somente em análises em segunda mão.

Hoje, no entanto, esse ideal ecumênico esbarra em certas dificuldades. Você pode ensinar a jovens ocidentais a “Ilíada” porque eles ouviram algo sobre Heitor e Agamêmon, e porque seus rudimentos de cultura incluem expressões como “o julgamento de Páris” e “calcanhar de Aquiles” (embora em um recente exame de admissão de uma universidade italiana um candidato tenha pensado que o termo “calcanhar de Aquiles” se referia a uma doença, como cotovelo de tenista).  Ainda assim, como conseguir fazer com que esses estudantes se interessem pelo poema épico sânscrito “O Mahabharata”, ou pelos poemas dos “Rubaiyat de Omar Khayyam” de forma que essas obras permaneçam em suas memórias? Será que realmente podemos adaptar o sistema educacional a um mundo globalizado quando a vasta maioria dos ocidentais cultos ignora totalmente que, para os georgianos, um dos maiores poemas na história literária é “O Cavaleiro na Pele de Pantera” de Shota Rustaveli? Quando acadêmicos não conseguem nem concordar se, na versão georgiana original, o cavaleiro do poema está na verdade usando uma pele de pantera e não de tigre ou de leopardo? Chegaremos sequer a esse ponto, ou continuaremos simplesmente a perguntar: “Shota o quê?”



Umberto Eco
in The New York Times

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Soft Fall

De onde vem esse som?
Qual som?
Esse bebê chorando, chorando... Choro de agonia, tristeza profunda!
Não ouço nada.
Parece estar em toda a parte e distante ao mesmo tempo.
Não consigo ouvir!
Que som triste. Estou angustiado só de o ouvir mas é um som que prende, faz querer ouvir.
É coisa da sua cabeça. Você está inventando esse som.
Não, não estou, chiu, ouve. Concentra. Consegue ouvir?
Não.
Estou completamente seduzido por esse som. Dependo dele. Não consigo mais viver sem ele.
Loucura.
Não sei. Não vou julgar. Mas que, paradoxalmente à tristeza, essa felicidade que sinto em sentir essa angústia é tão grande, diria até existencialmente grande,  que eu não preciso mais viver, estou completamente realizado como homem se tiver maneira de alimentar essa dicotomia sentimental.
Ou seja...?
Não preciso de mais nada. Esse choro me embebe numa angústia gigantesca e essa angústia me faz feliz.
Como é que isso é possível?
Não sei. É assim que eu me sinto.
Você é estranho.
Você não consegue ouvir mesmo?
Juro que não!
Estranho. É um som bastante real para ser imaginário.
A mente pode fazer destas coisas.
Você quer dizer que eu estou enlouquecendo, você gosta muito de fazer julgamentos..
Eu não quis dizer, eu disse.
Bravo. Porque é que você não volta à sua leitura?
Porque tem alguém me tirando dela.
Que não seja por isso.
...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Novela mexicana

Estou mudo. Cego. Já não ouço. É assim que me querem.
E é isso que eu me tornei. Felizes?
Já sou um fantoche, venham pois bonecreiros e sirvam-se
De mim.
Boneco inerte e sem expressão.
Digamos que eu não sei o que escrevo e nem por quê escrevo.
É que já não escrevo e preciso escrever. As palavras jorravam pelos meus dedos,
Letra por letra,
Frase por frase,
Até se transformarem num pretenso texto que eu publicava aqui.
Hoje em dia isso é memória. É passado.
E eu que cheguei a pensar em fazer isso para o resto da minha vida.
(risos)
Conseguem ver a tragédia nessa história?
"O herói, coitado, escrevia muito e agora já não escreve e então..."
E então?
E então que isso não é tragédia! É novela mexicana.
É isso meus caros. Leiam.
Leiam e não voltem mais!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

East Coker - T.S. Eliot - Fragmento

Em meu princípio está meu fim. Umas após as outras
As casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,
Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugar
Irrompe um campo aberto, uma usina, um atalho.
Velhas pedras para novas construções, velhos lenhos para novas chamas,
Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre a terra semeadas,
Terra agora feita carne, pele e fezes,
Ossos de homens e bestas, trigais e folhas.
As casas vivem e morrem: há um tempo para construir
E um tempo para viver e conceber
E um tempo para o vento estilhaçar as trêmulas vidraças
E sacudir o lambril onde vagueia o rato silvestre
E sacudir as tapeçarias em farrapos tecidas com a silente legenda.

Em meu princípio está meu fim. Agora a luz declina
Sobre o campo aberto, abandonando a recôndita vereda
Cerrada pelos ramos, sombra na tarde,
Ali, onde te encolher junto ao barranco enquanto passa um caminhão,
E a recôndita vereda insiste
Rumo à aldeia, ao aquecimento elétrico
Hipnotizada. Na tépida neblina, a luz abafada
É absorvida, irrefratada, pela rocha grisalha.
As dálias dormem no silêncio vazio.
Aguarda a coruja prematura.






quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O Retorno

*


Atmosfera pálida, sucumbe sobre o emaranhado de casas,
Tijolos que povoam as colinas outrora verdes.
Tempo seco, ar pesado, homens amargos;
"Eu vou te mostrar o medo num punhado de pó"!
A natureza se abre sob os céus num clamor de chuva silencioso,
Toda a criação divina pronta para o retorno do escolhido.
O medo se instala,
a desconfiança prevalece:
Será?
Será que é tempo de o juízo divino recair sobre os homens?
A minha frente vejo as curvas vivas e acentuadas de uma jovem e bela mulata e
ao meu lado os dentes brancos de um sorriso puro, tímido.
Então penso:
Não,
talvez não estejam preparados; Talvez não tenham sofrido
Ainda o bastante.
E num instante
Tudo volta ao normal.
Aquela manhã calma,
agitada pelos sinais tempestuosos de um fim aparente,
retorna graciosa, fresca,
de um brilho radiante,
Trazendo bons augúrios para esse novo dia.


*Imagem:  Os Retirantes
(João) Cândido Portinari

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Kieron Williamson

Windmill at Sunset
Kieron Williamson


Ele tem apenas oito anos de idade! Olhar para uma pintura como essa e saber que foi feita por um rapazinho dessa idade é quase inacreditável. Na minha opinião, que muitas vezes consegue roçar o absurdo, ele é uma reencarnação de algum grande pintor... Esqueçam isso! É mesmo um jovem gênio.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Coisas do momento

Eu tenho saudades. Aprendi a conviver com ela desde a minha tenra idade. Eu a ganhei uma vez, quando o meu irmão viajou por um período prolongado, foi quando a conheci, foi o meu primeiro contato com ela. Não sei dizer se fui eu quem gostou mais dela ou se foi ela de mim, mas desde então temos sido companheiros inseparáveis por diversas razões. Tenho o pressentimento de que será assim por muito tempo, aliás, por toda a minha vida. Sinto saudades de você, de mim, dele e dela, disto e daquilo, de tudo e de todos. As vezes canso-me da saudade, afasto-me dela, tento ficar distante. Depois fico com saudades da saudade,  procuro por ela com avidez e quando a encontro é uma emoção indizível, há muitas lágrimas, é sempre um grande conforto. Já não sei viver sem ela. Já faz parte da minha essência. A minha relação com a saudade é assim. Nem sei porque é que comecei a falar de saudade, deve ser porque a tenho agora. Não queria falar de nada, queria apenas escrever sem objetivo. Escrever por escrever, qualquer coisa sem início meio ou fim, sem razão, sem substância, sem beleza, sem pretensão. Escrever apenas porque escrever está comigo como a saudade. E porque tenho saudades de escrever. Eu escrevo desde quando aprendi a escrever mas naquela altura ainda não escrevia, rabiscava. Receio que ainda hoje só rabisque mas já são rabiscos com alguma forma. Eu me lembro de escrever sempre quando algo me incomodava, não apenas no sentido pejorativo mas sempre quando alguma coisa me chamava a atenção. E isso também foi na tenra idade mas não quero falar sobre isso. Não quero falar, apenas escrever. E porque é que temos de escrever  sobre alguma coisa, digo, escrever sempre tendo em vista a dissertação acerca de qualquer coisa, com um objetivo? Sinto no fundo da minha alma que não quero escrever sobre nada, pelo menos agora, e que ninguém leia. Não preciso que me leiam ou melhor ninguém quererá ou se interessará. É melhor assim. Sinto-me menos culpado pelo tédio alheio.

Galo

Canta um galo de madrugada
e eu o ouço sentado na minha cama
e eu penso no que pensa o galo
para cantar de madrugada
Se de madrugada ninguém o ouve?
Pobre galo na escuridão da madrugada,
canta para espantar essa solidão que te desagrada?
Ou para ver se me assusta
com o seu canto repentino na noite escura?
Se for por isso galo, escusa,
esse mal agouro já se não me ajusta.