quarta-feira, 1 de setembro de 2010

POBRES, ARTISTAS E PROSTITUTAS Terceira de três.

O que tem p'ra vender?


Vendo voz / vendo boca / vendo casa / vendo livros / vendo revistas pornográficas / vendo discurso / vendo silêncio / vendo atestado médico / vendo ideias dos outros / vendo fé / vendo carro roubado / vendo poemas / vendo cartas de amor / vendo suco na jarra na guaicurus / vendo velas e planos funerários / vendo chiclé e bala no sinal vermelho / vendo pássaros / vendo camisa da seleção / vendo chup-chup...

Por aqui vende-se de tudo;
De boca a cú / De dignidade a silêncio 

Por dinheiro, pelo dinheiro e para se ter dinheiro.
Não tem outro jeito. Este é o único jeito.
'Tá todo mundo vendendo algo.
O que você tem aí p'ra vender?
Prostitutas são todos que tem algo a "vender-se".
Se não tem p'ra vender é porque tem como comprar.
Compra quem pode, quem tem dinheiro, vende quem precisa, quem não tem opção.

Ora bolas, é necessário abrir o verbo!
Viver de moral e ética nos dias de hoje esta cada vez mais dificil.
Comprou - pague o que deve! Do modo que quiser. Financiado, crédito, débito, cheque... É claro que dinheiro não rege o mundo, mas assegura o pão que enche o estômago do amanhã.

Tenho esperança. A luta é pela legalização da prostituição.
Afinal esta cada vez mais dificil viver de moral e de ética nos dias de hoje.


Sinara Teles

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

...sobre o tempo ou as consequências do tempo no amor

O vento traz o pó que assenta no móvel;



] um mês ]
passo o dedo sobre o armário
surge uma linha sem poeira
desenho um quadrado, um sol, um coração.
o pó assentou no móvel e cobriu as linhas sem poeira.


] dois meses ]
desenho um quadrado, um sol, um coração.
o pó cobriu as linhas sem poeira


] três meses ]
desenho um sol, um coração.


] quatro meses ]
desenho um sol.


] cinco meses ]
encosto o dedo sobre o armário, surge uma pinta clara sem poeira.


] vários meses ]
o móvel branco de poeira
passo o dedo sobre o dedo, o pensamento oscila;
ele não mais me atrai.

Sinara Teles

terça-feira, 6 de julho de 2010

POBRES, ARTISTAS E PROSTITUTAS Segunda de três

Artistas falam para as câmeras / Artistas caminham em Búzios e são capa na revista Caras / Artistas têm os melhores vestidos e gravatas de grife / Artistas têm carros do ano / Artistas dão autógrafos / Artistas oferecem um pouco de cultura à locais carentes / Artistas são gente de dinheiro e fama / Artistas recebem convites da "Playboy" e da "GMagazine" / Artistas têm nariz empinado para dizer de boca cheia: "eu sou foda!" / Artistas fumam com uma mão e bebem uísque com a outra / Artistas possuem "status" / Artistas são "porra louca" e podem ser / Artistas são alvos de paparazzi / Artistas se casam e se separam e se casam outra vez num curto espaço de tempo / Artistas são boêmios e vagabundos / Artistas são homossexuais e heteroxessuais e daí? / Artistas não precisam de sentido - contemporaneidade / Artistas são cúmplices das políticas de governo e não de políticas de estado / Artistas são ex-BBB / Artistas são Rio, Sampa, New York e euros / Artista é boa aparência, boa impressão / Artistas são prostitutas que deixaram de ser pobres para serem ricos,

Artistas são aqueles que deixaram de ser inteiros para serem meia banda de qualquer coisa.

Sinara Teles

domingo, 4 de julho de 2010

POBRES, ARTISTAS E PROSTITUTAS Primeira de três

Pobres gritaram um dia; por muito tempo os pobres resmungaram... Hoje estão mudos.

Pobres desistiram / Pobres se entregaram a Deus / Pobres só não se matam por covardia / Pobres não choram / Pobres não comem / Pobres "trocam fogo" / Pobres não coversam / Pobre late, gruni e rosna / Pobre esperneia, sapateia / Pobre tem mais osso do que alma / Pobre cai no mesmo buraco sempre / Pobre bate no próprio rosto / Pobre perde copa / Pobre não ganha dinheiro / Pobre trabalha muito / Pobre precisa de vício / Pobre pisa em barro / Pobre engole poeira / Pobre é soterrado por lixão / pobre não se questiona,

Pobre engole calado,
Pobre guarda grito que vira câncer,

Pobre alimenta solidão , saudade / Pobre acha que briga por direito / Pobre quer descanso projetado num único dia: o domingo / Pobre vê no dinheiro a única saída / Pobre reconhece letras, mas não lê livros / Pobres analfabetos funcionais desse país / Pobres dos meus e dos seus parentes / Pobre da raça humana / Pobre de mim / Pobre alma / Pobres almas humanas na mira da exploração do sistema ,

Pobre alma humana na mira do medo e do mistério da existência.



Sinara Teles

terça-feira, 29 de junho de 2010

Um Fragmento - T.S. Eliot - "I will show you fear in a handful of dust."

The Waste Land (As Terras Devastadas)

1922

Pois com meus próprios olhos vi em Cuma a Sibila,
suspensa dentro de uma ampola, e quando as crianças lhe diziam:
"Sibila o que queres?"; Ela respondia: "Quero morrer.".
(Caius Petronius Arbiter)



I - O Enterro dos Mortos


"...
Cidade irreal
Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,
Fluia a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos
Jamais pensei que a morte a tantos destruira.
Breves e entrecortados os suspiros se exalavam,
E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.
Galgava a colina e percorria a King William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas
Com um dobre de morte ao fim da nona badalada.
Vi alguém que conhecia, e o fiz parar aos gritos: "Stetson,
Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!
O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores este ano?
Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?
Conserva o cão a distância, esse amigo do homem,
Ou ele virá com as suas unhas outra vez desenterrá-lo!
Tu, hypocryte lecteur! - mon semblable - mon frère!"


sexta-feira, 25 de junho de 2010

Lupa Capitolina


Tocou aquela face delicada, suave como uma pétala de rosa. Era pálida a pele, via-se apenas um rosado bem leve de sangue nas pequenas bochechas, era de vida a esvair-se aos poucos daquele frágil corpo.

Sentiu algo animalesco romper seu coração, era natural, era estrondosamente terno, era a sensação pós parto apesar de nunca ter parido. Sentiu isso ao toque frio daquele ser indefeso.

Surpresa. Explosão. Primeiro um, depois outro. Era um dia normal em que a nossa mulher estava de folga do trabalho. Era advogada. Trabalhava num escritório. Era solteira. Vivia sozinha. Aproveitava a vida. Precisou levar o lixo ao lixo, necessidade que não sabia que mudaria a sua vida.
Inspirou fundo, muito fundo, para tentar conter o espanto que tomou de súbito o centro do seu tórax. Quando ouviu um choro baixinho de agonia não conseguiu conter o fluxo de ideias, de sentimentos e emoções que passaram pelo seu corpo. Sensação incomensurável aquela que a nossa mulher teve ao abrir o contentor do lixo e ver aquela criança recém nascida abandonada miseravelmente, desumanamente.

Mãe. O sentimento materno aflorou-se na sua alma qual fogo-fátuo, da mesma forma ardente, ao toque macio daquele ser pálido.
Já em seus braços, abraçou-o com cuidado mas com uma intensidade tão violenta que parecia anular a verdade daquela criança e dar-lhe um nascimento de suas próprias entranhas.
Era isso. Sabia. A partir de agora essa criança tem o meu sangue. Pensou.
Estava de joelhos. Levantou-se. Beijou aquela vida delicada. Encaminhou-se para casa com um filho nos braços como se o tivesse parido a caminho da lixeira. E para ela houve de fato um parto a caminho da lixeira. Para a nossa mulher aquela verdade, a que viu ao abrir a lixeira, só existia para os tribunais e para nós leitores.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

"Era uma vez"

Era uma vez uma vez que era e já não é.
A cada vez que pega na pena as palavras choram,
são dor, são traumas, são crises e pseudo-crises, são atrizes a se agitarem numa pantomima frenética
de vermelhos, lilases e também laranjas, ávidas por serem vistas neste vasto palco branco,
são um auto-retrato sem luz, são uma ambição cega e ingênua.
Era uma vez uma vez que era e já não é mais
e que embora tenha sido permanece presente sem o ser,
presente de grego como aquele cavalo de Tróia, que serve de metáfora emocional para esta triste pena desesperada desenhar neste papel o esboço estilístico desse "seja lá o que for". "Era uma vez" não parece bom para começar "seja lá o que for" mas não me importo, nunca me reduzi as aparências e apesar de essa tentativa de dar uma oportunidade a esse cliché clássico ser um fracasso, não vou desistir, seguirei adiante com essa humilhação sem tentar fantasiá-la ou justificá-la, afinal não tenho nada melhor com que possa começar um bom texto e "era uma vez" desfila em cada neurónio desta cabeça, porque "era uma vez" leva uma suposta genialidade ao nível rasteiro de... "Era uma vez".
E as palavras ficam vazias como uma folha em branco, promissoras mas pálidas. Ah, como a minha pena sofre e sangra. E não há nada que se possa fazer.

domingo, 11 de abril de 2010

Super_sanidade

Era a dormir. De olhos a dormir e espírito acordado. Era assim que ele conseguia se transformar em dois. E falava consigo próprio e ele mesmo o respondia de forma independente, como se o cérebro que processava a pergunta e elaborava a resposta pertencesse a um outro corpo, a uma outra pesonalidade distinta. Ele redarguia à sua própria resposta feita à sua própria pergunta. Eram definitivamente dois. Dois em um. Ele não entendia essa possibilidade. Assim de repente, id perguntava a ego e ego respondia à pergunta de id e mantinham uma conversa amigável assistida por ele próprio que nesse caso seria o resquício de consciência dentro desta loucura. Era agradável e inquietante esse big bang de um novo universo que nascia dentro do seu. O que em alta voz pareceria insanidade mental, em silêncio lhe soava a poesia. Ou, pelo menos, se não fosse poesia não terminaria num quarto branco. E assim viu que os seus olhos assaz dormiam. Acordou-os e a sensação de realidade que marcava aquele sonho rompeu a fina e delicada membrana que separa os dois mundos e essas duas matérias, qual água e óleo, se misturaram, rompendo também assim as leis da física ou pelo menos a da metafísica. Já acordado, pensou em internar-se. Agora não! Pensou em dormir outra vez. Dormiu. E quando estava a sonhar, deu por si de olhos abertos a contemplar o seu sonho.

domingo, 4 de abril de 2010

Subtilmente

Primeiro o silêncio (...)
Um leve toque, bem leve, depois o gosto,
num turbilhão de sensações.
Forte, leve e... Forte outra vez!

Depois o olhar (...)
o riso pinta cores, timbres...
Ai lembranças! Cheiro!

A lua.
Ela durante milênios, tão cúmplice de todas as façanhas humanas.
A gente acompanha hoje o seu quarto crescente e ela nos observa,
suavemente nos observa.
e o desejo pela noite fresca e branca de lua é latente.

As carícias;
Um beijinho de esquimó.
E um de borboleta,
uma saudação aos olhos!

A respiração profunda!
Uma dor gostosa de mordida, de arrancar pedaço..
pedaço/pede/parte/uma parte/parte de mim.

Meu cavalheiro,
Meu Gentleman,

Deixou por aqui o ruído da sua energia
circulando por entre a roseira vermelho/laranja
do meu vestido.

By Sinara Teles

sexta-feira, 26 de março de 2010

Mensagem do Dia Mundial do Teatro - 27 de Março de 2010

O Dia Mundial do Teatro oferece-nos uma oportunidade de celebrarmos o teatro sobre toda a sua miríade de formas. O teatro é uma fonte de divertimento e inspiração e tem a capacidade de unificar as muitas e diversas culturas e povos que existem por todo o mundo. Mas o teatro é mais do que isso e também nos proporciona oportunidades de aprendizagem e informação.




Faz-se teatro por todo o mundo e nem sempre num ambiente teatral tradicional. Os espectáculos podem acontecer numa aldeiazinha africana, perto de uma montanha na Arménia ou numa minúscula ilha do Pacífico. Só é preciso um espaço e um público. O teatro tem a capacidade de nos fazer sorrir, de nos fazer chorar, mas também deve fazer-nos pensar e reflectir.



O teatro acontece devido a um trabalho de equipa. Os actores são as pessoas que se vêem. Mas existe um conjunto impressionante de gente que fica fora de vista. São elementos tão importantes como os actores, e as suas capacidades várias e especializadas tornam possível a criação de um espectáculo. Também elas devem partilhar os triunfos e sucessos que esperamos que ocorram.

Dia 27 de Março é oficialmente o Dia Mundial do Teatro. Sob muitos aspectos, todos os dias deveriam ser considerados dias do teatro, uma vez que nos cabe a responsabilidade de dar continuidade à tradição de divertir, de educar e de esclarecer os nossos públicos, sem os quais não existimos.



Dame Judi Dench